O retorno pós-freudiano das primeiras técnicas psicoterapêuticas de Freud

 

O retorno pós-freudiano das primeiras técnicas psicoterapêuticas de Freud

Malomar Lund Edelweiss

 Os pródomos –

 “Em fins de novembro, vi a enferma pela primeira vez, por causa de uma tosse. Era evidente ‘tussis hysterica’ e identifiquei a paciente, de imediato como doente mental, pelo comportamento estranho” (Hisrchumueller, A., 1978, pag.352).

Este comunicado remete ao ano de 1880. Na verdade, consta do relatório de quase dois anos mais tarde (por volta de julho de 1882), que Joseph Breuer, de Viena, endereça a Robert Binswanger, do Sanatório Bellevue, na Suíça (em Kreuzlingen, às margens do Lago de Constança). O sujeito da referência é Bertha Pappenheim, então com vinte e três anos (ou ‘Anna O. nos estudos de Breuer e Freud sobre a histeria).

Os sintomas histéricos eram investigados e discutidos com muito interesse naquela altura do século XIX. Sua presença era freqüente nos consultórios médicos e profundos, o desconhecimento de sua etiologia, com muita dúvida quanto à sua natureza em que se suspeitavam grossos fatores neurológicos.

Breuer, portanto, na comunicação, diz que Bertha era histérica mas que, além disto, se tratava de uma doente mental. Foi enorme e admirável a acuidade do homem de ciência e de clínica: pela observação do que via, por exclusão do que sabia positivamente, por intuição do que ainda era nesciência, concluiu que (parafraseando Hamlet) estava diante de muito mais do que conjecturara, até então, sua vã filosofia médica. Assim é que deparou a ‘ideogeneidade’ dos distúrbios com que tinha de avir-se e, do melhor modo que pode, forjou as armas a terçar.

Joseph Breuer, aos quarenta anos, clínico de renome em Viena, com segura probabilidade, era médico da família Pappenheim e, compreensivelmente, fora chamado para atender a jovem, cujo padecimento manifesto, na ocasião, correspondia à especialidade pela qual o médico era mais reconhecido. Aos seus olhos, desdobram-se variados sintomas: estrabismo convergente, perturbação da visão, dor de cabeça do lado esquerdo posterior, paresia dos músculos da garganta, contractura e anestesia do braço direito e, finalmente, inapetência tenaz.

Esta fase protrae-se de 17 de julho até 11 de dezembro de 1880. A primeira data corresponde a uma noite (17/18) em que, de vigília ao pai enfermo – acamado com peripleurite, muita febre, e aguardando a chegada pelo trem, de um cirurgião que lhe faria lancetagem de um abscesso – Bertha, com o braço direito o espaldar da cadeira em que repousava, a cabeça deitada sobre o braço, tem uma ausência e vê alucinatoriamente, uma cobra que sai da parede, coleando, e vai enroscar-se no corpo do pai afim de matá-lo.

A jovem sente o braço anestesiado pela posição em que estivera. Os dedos da mão se transformam em pequenas serpentes e as unhas, em caveiras. É provável que haja tentado afastar as cobras com o braço paralisado.  Transida de medo, quis rezar mas a fala esvaneceu-se por completo. Afinal, assomou-lhe um provérbio inglês e, em seguida, pode recitar uma oração e prosseguir pensando nessa língua.

O apito do trem que deveria trazer o médico para atender o pai, cortou as imagens fantásticas, mas Bertha nem se deu conta da presença do cirurgião quando este, em realidade, examinou o cliente, permanecendo ela no quarto. Bertha, em constante angústia, a revesar-se com a mãe, passara a descansar pouco e alimentar-se mal. Instalou-se, enfim, anorexia irredutível que produziu debilitação generalizada e obrigou a paciente guardar o leito, a 11 de dezembro.

Breuer fazia visitas diárias e, com isto, passou a observar o estado psíquico da jovem. Sobressaíam mudanças rápidas de ânimo, alucinações e ausências que desembocavam em dois estados distintos de consciência, além de afasia entremeada de absoluto mutismo. Alternadamente, em certo ritmo, ora Bertha se mostrava triste e caprichosa, mas relativamente normal, em bom contacto com o meio circundante, ora alucinava e se mostrava rebelde.

À tarde, sobrevinha topor sonolento que, ao crepúsculo, se transmudava em ausência prolongada, uma como que ‘hipnose vespertina’. Desta fase, anotou Breuer duas coisas fundamentais. A mudez era induzida psicologicamente: Ele o verificara, certo dia, em que a filha indispusera com o pai e resolvera não perguntar nada mais a respeito dele a ninguém. Breuer obrigou-a a falar sobre o acontecido e, com isto, o silêncio ou, seja, a ‘hipnose vespertina’ era concomitante, sempre, a determinado ciclo de representações mentais.  Se, por exemplo, alguém pronunciasse palavra que correspondesse a algum daqueles conteúdos, a jovem, tendo isto como estímulo, desenvolvia, a partir daí, uma fábula qualquer ou algo semelhante a um conto de fadas, após o que despertava tranquila, bem disposta e relativamente equilibrada.

Estes dados orientaram o desenrolar do tratamento. Foi pedida a cooperação da família e da enfermeira para darem o máximo de atenção ao que Bertha proferisse durante o dia. À tardinha, advindo o estado de sonolência mais profunda, Breuer repetia alguma das palavras acaso ouvidas.  Bertha a seguir, compunha uma estória com essa temática.

A paciente melhorou de modo sensível, embora permanecesse a afasia (durante a qual lhe era possível entender o alemão mas falar só inglês, francês ou italiano). Continuavam, também, algumas perturbações visuais e se contracturas do lado direito.

Desaparecidas os demais sintomas, Bertha pode deixar a 1º de abril de 1881. Quatro dias depois, falece o pai, desencadeando-se gravíssima crise na jovem. Na realidade, há dois meses ela não o via. O que lhe aumentara as saudades, ligada, como era a ele. O sentimento de angústia pelo estado dele crescera, principalmente porque mentiam a ela, pretendendo poupá-la.

No dia da morte em que o pai morria, Bertha gritou pela mãe e conjurou-a a dizer a verdade. Como resposta, veio um subterfúgio falsamente tranqüilizador e a paciente tentou averiguar a realidade pedindo cofúgio falsamente tranqüilizador e a paciente tentou averiguar a realidade pedindo comida e fazendo menção de escrever ao pai. Imaginava que, tivesse ele morrido, não atenderiam a nenhuma das duas coisas. 

Se, entretanto, lhe dessem comida e lhe permitissem escrever ao morto, de cujo contacto, há tanto, estava afastada, é porque haviam traído quanto ao seu mais candente desejo: o de ter o último olhar dele e ouvir-lhe a derradeira palavra. Acontecesse isto, ele não mais suportaria ter, ainda, algo em comum com essa gente. Este foi o ponto crucial do relacionamento cheio de asperezas entre mãe e filha. Breuer permanecera calado a respeito do que quer que fosse.

Na noite seguinte, muito agitada, a paciente clama pelo médico. Acalma-se ao vê-lo entrar. Aceita recolher-se ao leito e diz: “Não me minta mais, doutor, eu sei que meu pai morreu”. No outro dia, apresenta um quadro estuporoso e ocorrem novas perturbações da visão. Pelos meados de abril, o psiquiatra Kraff-Ebing é chamado da cidade de Graz, onde clinicava. É totalmente ignorado por Bertha nos primeiros momentos. Mas, ao decorrer do exame, que envolvia uma picada de agulha para verificar a anestesia da perna, a moça protestou contra uma agulha incomodativa que devia estar na meia que calçava.

O visitante acendeu um papel e soprou a fumaça no rosto da paciente que se esforçou por perceber o que acontecia e, notando o homem estranho, cheia de rancor e apavorada, começou a bater em Breuer que levou bom tempo a acalmá-la. Este episódio foi-lhe esclarecedor de toda a situação. Na mesma noite, teve de viajar a Berlim por alguns dias.  Desde a morte do pai, a enferma não tomara mais qualquer alimento por si mesma. Aceitava beber água de quem lhe trouxesse, mas só consentia em comer das mãos der Breuer.

Ao regresso deste, a cliente piorara muito. Era torturada por alucinações auditivas e visuais, pavorosas caveiras e esqueletos que lhe surgiam desde que relera uma cena correspondente em Hamlet. Mais azedo se havia tornado o relacionamento com os da casa, em particular com a mãe, em cuja presença sentia desagradáveis ondas de calor, que era um pouco mais brando se a companhia era a do irmão (Bertha chamava a isto ‘ os fornos’, no típico linguajar criado por ela).

Continuavam a sonolência pós-meridiana, a ‘nuvem’ ou hipnose vespertina ao por do sol e as estórias construídas, sempre incluindo variações sobre a morte do pai e com figuras cada vez mais horríveis depois da visita de Kafft-Ebing.  As vezes, durante o dia, já era possível adivinhar o que seria contado à noite, pois os conteúdos eram vividos, com alguma dramaticidade, ao fluir das horas. Impressionava o contraste entre o antes e o depois da narração: Bertha voltava a si, animada, punha-se a trabalhar, pacatamente escrevia ou desenhava a noite inteira até as quatro da madrugada, e tudo recomeçava ao despertar seguinte.

Não obstante a amenização noturna dos sintomas, o estado geral de Bertha continuou a deteriorar-se. Durante a afasia plena, revelou-se, também, a agrafia, pelo que a paciente começou a escrever com a mão esquerda em letra de forma. As alucinações horrendas e o estado de terrível agitação culminaram em tentativas de suicídio. Temeroso, Breuer removeu a cliente da moradia citadina, onde residia no terceiro andar, e conduzi-la a uma vila, anexa a um sanatório, dentro de um belo parque inglês, nos arredores de Viena, a 7 de junho de 1881.

A jovem não era, oficialmente internada dessa casa de saúde, pois Breuer queria tratá-la, ele próprio. De fato, visitava-a com regularidade quase cotidiana. Nos dias em que não ia vê-la, ela só era capaz de dormir sob enérgicas doses de sonífero. Na presença do médico, a paciente encontrada de hábito, em auto-hipnose, era estimulada a contar suas estórias e, dentro em pouco, de chofre, se tornava alerta, amável e dócil. Houve progressos até as férias de verão, quando se ausentaram Breuer, uma tia e ‘todos aqueles a quem ela via com prazer’.

Ao retorno Breuer, em meados de agosto, as pioras eram notáveis. Bertha se achava em péssimo estado de espírito, rebelde, maldosa, dada a venetas, indolente.  O médico viu-se impelido a intensificar a terapia. Devolveu a paciente, por uma semana, à residência da cidade e, noite após noite, autoritariamente, exigia que Bertha lhe narrasse de três e cinco estórias das que soia compor.

O conteúdo de agora eram menos as antigas fantasias poéticas do que o tema das alucinações e o que a irritava durante o dia, tudo traduzido em símbolos bastante claros e inteligíveis. A cada procedimento destes, as ausências diminuíam e o sono vinha naturalmente. Depois disto, o dia seguinte corria normal, o segundo era tolerável e o terceiro trazia de volta todos os mal-estares já conhecidos que requeriam nova 1talking cure’ ou ‘ chimney sweeping’, na classificação da paciente.

Após a elaboração psicoterapêutica de toda a patologia acumulada nas cinco semanas da vilegiatura de Breuer, dois fatos, particularmente, o intrigaram.  Ao deitar-se para dormir, Bertha não lhe permitia que tirasse as meias. Tarde da noite, ao despertar, ocasionalmente, reclamava que a tivessem posto na cama com tal desmazelo. Até que certa vez, ela relatou a Breuer dupla ocorrência inteiramente olvidada. Ainda na moléstia do pai, proibida de passar a noite a cuidá-lo, Bertha costumava esgueira-se a espreitar o que pudesse estar acontecendo, após o que, se deitava de meias.

Numas dessas, o irmão a surpreendeu. Narrado isto e após choramingar sobre o porquê de deitar-se com meias, descalçou-as e nunca mais se repetiu o fato. O segundo evento dizia a respeito à sede da paciente na canícula do verão. Por seis semanas, ela não ingeria uma gota d’água e se dessedentava com frutas, em especial, melões.

Finalmente, desabou ter visto o cãozinho nojento da dama inglesa de companhia, a beber do copo de ambas. Na hora, não protestaria para não ser grosseira, apesar do profundo asco que sentira. Feita esta revelação, cinco minutos depois, Bertha queixou-se de sede e tomou meia garrafa d’água. O problema desapareceu de vez. O espasmo orbicular e a contractura da perna direita esvaíram-se, também, sem que Breuer lembrasse quando nem soubesse por quê.

Permanecia, ainda, o bloqueio de comer e beber pelas próprias mãos, deixando a paciente que os outros a alimentassem. Houve um breve episódio de recusa ao pão, que a paciente solicitava e, depois, repelia ao tocá-lo nos lábios. Mas também isto sumiu, depois de uma das narrativas fantasiosas costumeiras. 

Em novembro, a cliente foi devolvida à moradia urbana, pois o terapeuta julgara que as melhoras prosseguiram. Tais esperanças ruíram, por completo, no mês seguinte.  Em verdade naquele outono, Breuer já parecia duvidar do sucesso da psicoterapia empreendida visto ter escrito a Binswanger sobre a possibilidade de enviar-lhe a paciente para internamento em Kreuzlingen.  Bertha, entretanto, permaneceu em casa e, em dezembro de 1881, seu estado novamente se agravara. Em particular, deteriorara-se o psíquico, assinalando a piora uma singular dissociação do tempo, novo sintoma que inaugurava a quarta fase patológica do caso.

Os principais acontecimentos de 1882 se reproduzem nas páginas da dissertação de Breuer e Freud sobre a histeria. Para eliminar os processos mentais agudos, era mister se elaborasse o remanescente da primeira fase, a incubação da doença (julho a dezembro de 1880). Os sintomas deviam reproduzir-se, um a um, e, ao surgirem, era forçoso retroceder sem sua história até alcançar-lhe o núcleo central. O dispêndio de tempo era imenso. Dia a dia, além de uma sessão, à noite, acrescentava-se outra, pela manhã. Dado que a jovem, somente após o entardecer, isto é, para a segunda sessão, espontaneamente entrava em estado hipnóide – e este se demonstrara imprescindível para a terapia – Breuer tomou a resolução de usar, daí em diante, pela primeira vez, a técnica da hipnose induzida.

Albrecht Hirschmueller, autor da melhor biografia existente de Breuer (sob o título de Physiologia und Psychoanalyse), se pergunta, com algum espanto reverencial, como poderia ocorrer a um clínico a idéia de praticar psicoterapia sob hipnose naquele tempo. Era, no mínimo, ousadia toda fora do comum. E assegura o mesmo autor, que isto só se trona compreensível levando-se em conta a personalidade de Breuer, sua atividade médica e seu modo de pensar.

Os fenômenos hipnóticos eram conhecidos de longa data, sob denominações várias: mesmerizamos magnetismo animal, hipnotismo. Discutira-se muito sobre fluido magnético e irradiações ou emanações do corpo humano. A notória popularidade das manifestações espetaculares, desde curas milagrosas até crimes, em especial, sexuais, colaborou para que tudo o que se referisse a hipnose se infamasse do estigma de charlatanismo. Mesmo noutros países da Europa, inclusive na França entre 1860 e 1880, mal ousaria um médico arriscar-se a hipnoterapia. Braid e Liebault eram poucos lidos, se não ignorados de todo. Em 1873 (com Johann Nepomuk Czermak, professor de Fisiologia), em Leipzig, inicia-se uma pesquisa de ‘ estados hipnóticos’ em animais. A discussão brota desde 1875 e, em 1880, avoluma-se a onda de prós e contras nos meios científicos, em particular, médicos. Chegou a haver intervenções de autoridades, recursos à polícia e denúncias em juízo, resultantes em condenação.

Impulso decisivo originou-se dos franceses. As vozes de Charles Richet, em 1875, e de Charcot, em 1878, foram ouvidas com certo respeito e ecoaram vigorosamente. Por certo, o último, com seu famoso trabalho de 1882 (‘Sur les Divers États Nerveux Déterminés par L’hypnotization chez lês Hystériques’), contribuiu com o que faltava para abrir as portas da consideração científica ao tema.

Juntaram-se a eles filósofos (Taine, Ribot, Bergson) a tomar posição, quando não envolver-se, diretamente, em experimentos. Breuer não era alheio a problemática em torno da hipnose. Sua geração ouvira, claramente, o eco das discussões sobre o mesmerismo e os magnetizadores, e, em 1880, Viena era bafejada pela revivescência parisiense da hipnose. Averbe-se um fato curioso. Anos antes, em 1868, o futuro e conhecido psiquiatra Moriz Benedikt, tentara repetir os experimentos de Lasègue, de colocar mulheres nervosas em catalepsia como recurso adjuvante ao tratamento eletroterápico a que deveriam submeter-se.

Os ensaios se realizavam abrigados sob a tutela do professor de Clínica, Johann Oppolzer, que fornecera o espaço necessário e indicara os pacientes para o trabalho de Benedikt. Informa este que, certo dia, ‘o talentíssimo e destacado assistente’ de Oppolzer, Joseph Breuer, advertiu-o de que tais experiências pertenciam à esfera do magnetismo animal e que guardasse de aplica-las na clínica.

A monição foi prudentemente respeitada. Sobressai, disto, a evidência de que Breuer conhecia o desapreço em que essas pesquisas eram tidas na época e de que ele próprio compartilhara da repulsa generalizada aos fenômenos hipnóticos.

  (texto em digitação)