A hipnose Clínica

Texto: Prof. Malomar Lund Edelweiss

 

Os fenômenos que constituem o que hoje é conhecido sob o nome de hipnose, desde que James Braid criou o termo em 1843, vêm em linha direta do que Franz Anton Mesmer por volta de 1776, atribuía a um magnetismo animal presente nos seres humanos hipótese que tentava dar a primeira explicação científica ao processo de indução do transe e aos fenômenos que ele pode incluir.

Esta força especial latente podia ser ativada e orientada para o tratamento de distúrbios patológicos por profissionais devidamente adestrados, os magnetizadores. Próprios da época eram tanto certo caráter espetacular, uma como que sobra do barroco que se extinguia, e o autoritarismo, natural dos sistemas políticos vigentes, das monarquias de poder absoluto.

As duas notas se prolongaram anos afora, estão nas crônicas dos que se distinguiram, em seu tempo, no uso dos processos hipnóticos, e resistem em certos modos de indução da hipnose. Jean Martin Charcot, a quem deve creditar-se a volta da respeitabilidade científica da hipnose, de meados do século XIX em diante, induzia o transe em seus pacientes histéricos mediante o choque dado pelo estouro e lampejo de explosão de magnésio.

Não são raros os clientes que, ante a proposta do uso da hipnose em terapia atemorizados, a rejeitem, declarando que a experiência pela qual já passaram, em alguma ocasião, os desencoraja de qualquer nova tentativa, seja qual o objetivo em pauta.

Real e inconteste é a grande e benéfica influência exercida por Milton Erickson, psiquiatra norte-americano, em certa remodelação do uso da hipnose em procedimentos clínicos, tanto na maior divulgação de modos não autoritários de indução dos estados hipnóticos, quanto na aliança dos mesmos a uma ampla gama de ajudas terapêuticas da mais variada natureza.

Não se oblitere, entretanto, o fato de que nem todos os profissionais da hipnose, anteriores a Erickson, eram, irremisivelmente, imperativos. Já muito antes, entre outros H. Bernheim e P. Janet, ainda no tempo de Charcot (e não foram os únicos), com frequência, levavam o cliente ao transe desejado, de maneira branda, às vezes imperceptível para quem não estivesse atento ao que se procedia. O mesmo se diga no respeitante à técnica de inúmeras intervenções clínicas, de alto valor, reconhecendo-se ainda, aqui, a enorme, de inúmeras intervenções clínicas, de alto valor, reconhecendo-se ainda, aqui, a enorme, exemplar e invejável intuição de Erickson no seu trato com o cliente, aplicasse ou não a hipnose. Recorde-se também que, em não poucas de suas intervenções terapêuticas, seria impossível definir, com preciso vocabulário, o que haveria do que pudesse denominar-se transe hipnótico.

No que pese a inconveniência, cada vez mais gritante, do designativo hipnose, a rigor, nas palavras adequadas de André Weitzenhoffer, hipnólogo de merecido destaque internacional, amigo de Milton Erickson e com quem sempre manteve o mais cordial relacionamento, não existe uma hipnose que deva ser adjetivada, especificamente, de ericksoniana, reflexológica (pavloviana), janetiana, ou merecedora de qualquer outro qualificativo, a não ser porque o autor deseje por em evidência o modo como induz, ou pretenda teorizar particularizadamente sobre sua natureza.

Os fenômenos hipnóticos idênticos induzidos por quem quer que seja e de modo como o sejam, demonstram, em si mesmos, propriedades comuns, conhecidas ou não suas virtudes intrínsecas.

A hipnose, na clinica requer formação efetiva de seu praticante, alicerçada no conhecimento científico devido e na experiência confiável.  Jamais é possível saber antemão, com certeza e seus pormenores, o que o cliente possa apresentar ao ser-lhe induzido o transe. Assim, pois, diante do fato de que o que se pretende, com o paciente, é só anestesiá-lo para uma breve intervenção cirúrgica, não se tem conhecimento antecipado daquilo que possa incidentalmente aflorar.

A indução habitual é um procedimento sugestivo, de modo explícito ou implícito, e o transe hipnótico é um permeabilizante ou facilitador da abordagem de processos e conteúdos psicológicos inconscientes, em latência.  Estes, não raro subsistem como à espera, tão só, de um momento propício para manifestar-se, e a indução hipnótica pode ser desencadeadora dos mesmos. Ouve-se por vezes, ser recomendado não induzir o transe em sujeitos  psicóticos ou histéricos. A advertência pode ser válida, e tanto mais acertada quantomenor for a capacitação profissional comprovada do hipnotizador.

O clínico  que se abalance a usar a hipnose, justamente por ser clínico e não mero hipnotizador, tem de estar a cavaleiro do que lhe compete, afim de avir-se , adequadamente, com a emergências que se lhe sobrevenham da parte do cliente em atendimento, ainda que depois, seja ele conduzido a outro especialista,se for isto o recomendável.

Na literatura ampla, atual e criteriosa, ora existente a respeito, merece vista longo artigo de John Gruzelir, em alentadas páginas, aduzindo percalços na indução e manejo dos fenômenos hipnóticos, tanto na clínica, quanto noutras situações legítimas, como a do estado dos mesmos em laboratórios.

Note-se: “Os efeitos adversos são comuns, sejam fisiológicos ou psicológicos, e, na maioria das vezes, de curta duração. Entre os fatores facilitadores incluem-se a alta hipnotizabilidade e o envolvimento cognitivo e pessoal, ainda que efeitos secundários à hipnose como ficar inerte (“ desactivation”) e a ansiedade possam causar reações tais como dor de cabeça. As conseqüências mais sérias quase que exclusivamente, ocorrem no uso clínico e nos entretenimentos, e tem incluído psicopatologia crônica, ataques (“seizures”), estupor, episódios espontâneos de dissociação e o ressurgimento de lembranças de traumas anteriores, tipicamente acompanhadas de regressão da idade” (pag.63)

Há uma só regra a confirmar-se: a de que o usuário clínico da hipnose tenha o domínio da mesma no campo aonde venha a usá-la.  Esse predicado não se adquire por outra iniciação que não seja estudo condigno e diligente experiência. Em qualquer profissão diploma ou atestado significa, em si presunção de conhecimento.  O bom desempenho da atividade correspondente é comprovação de conhecimento.

(*) O autor destas linhas começou o estudo e prática da hipnose em julho de 1949, dedicando-se aos mesmos durante cinco anos. Tornando-se psicanalista, em fins de 1954, ficou a hipnose relegada segundo plano, praticada ocasionalmente, fora da clínica. Em 1981, vindo a conhecer a atividade hipnoterapêutica de Milton Erickson, começou a encerrar as psicanálises clássicas ainda em curso e passou a unir os dois campos conhecidos, o da hipnose e o da psicanálise, no atendimento psicoterapêutico dos clientes.

 

  • A experiência do autor do presente texto coincide com a de outros psicoterapeutas. Há pacientes histéricos ou psicóticos que podem devidamente tratados com técnica adequada que inclua a hipnose.

  • Professor John H. Gruzelier – (Department of Cognitive Neuroscience and Behaviour – Imperial College of science, technology and Medicine – London UK) – Unwanted effects of hypnosis. A review of the evidence and its implications – “Contemporary Hypnosis”, vol. 17, Nº 4 – 2000 – pags. 163 – 193

(texto em digitação)